Crise do grupo imobiliário Evergrande pode ter consequências para os principais parceiros comerciais da China, como o Brasil.

O mercado financeiro vem acompanhando de perto o desdobramento da crise da Evergrande, segunda maior incorporadora da China, que tem enfrentado dificuldades para honrar compromissos de curto prazo.

O que os especialistas querem saber é se uma eventual insolvência da empresa poderia gerar repercussões em toda a economia chinesa e afetar a capacidade de entrega de imóveis de outras incorporadoras de grande porte, consideradas estratégicas para a expansão econômica do país asiático.

Outro temor que vem assombrando o mercado é o possível efeito dessa crise sobre os principais parceiros comerciais da China, como o Brasil, cujas exportações de commodities são altamente dependentes da taxa de crescimento de diversos setores da economia chinesa, como o mercado imobiliário.

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Neste artigo, você vai entender melhor a extensão da crise da Evergrande, seu possível impacto no mercado imobiliário da China e como isso pode afetar a economia brasileira.

Como funciona o mercado imobiliário chinês?

Apesar de relativamente jovem, o mercado imobiliário da China é extremamente dinâmico e conta com a participação tanto de empresas privadas, como a Evergrande, quanto de incorporadoras estatais e de capital misto.

O setor é considerado estratégico para o crescimento econômico do país, que vem enfrentando, nos últimos anos, grandes ondas migratórias do campo para os centros urbanos, aumentando a demanda por moradia de qualidade nas regiões com maior oferta de empregos e infraestrutura de saúde e transportes.

O acesso à moradia é visto pela China como importante instrumento de criação de riqueza. Nesse sentido, o financiamento de novas construções e de projetos de readequação urbanística conta com volumes crescentes de capital privado e estatal.

Evolução da legislação imobiliária na China

Em 1978, o governo do país abandonou o modelo de planejamento centralizado, que distribuía as residências em unidades de trabalho conhecidas como danwei.

Dez anos depois, foi aprovada uma emenda constitucional que permitiu a entrada do planejamento privado e das negociações de direitos de uso de terrenos. Isso permitiu a chegada de grandes empresas no setor, como Longfor Group, China Resources Land, China Country Garden e Evergrande.

Nos anos seguintes, o governo passou a implementar uma série de pacotes de estímulos, que abriu espaço para um grande fervor especulativo, graças a taxas de juros subsidiadas e recursos abundantes para a construção de empreendimentos residenciais e comerciais.

A situação evoluiu a tal ponto que uma bolha se formou no período de 2005 a 2011, inclusive com o surgimento de diversas cidades-fantasma por todo o país.

Crise da Evergrande e risco sistêmico

A Evergrande é o segundo maior grupo imobiliário da China em volume de faturamento, principalmente nas províncias de Hubai, Shenzhen, Guangdong e no distrito de Nanshan.

A empresa tem como foco a incorporação de empreendimentos de médio e alto padrão e vem registrando um crescimento exponencial desde sua fundação, em 1996, pelo executivo Hui Kan Yan. Sua expansão nos anos seguintes foi tão forte que a Evergrande se tornou, em 2018, a empresa mais valiosa do mundo no setor imobiliário.

No entanto, desde 2015, a companhia vinha buscando diversificar seus ramos de atuação através da alavancagem financeira, isto é, tomando empréstimos e emitindo títulos de dívida, inclusive em moeda estrangeira, para impulsionar seu crescimento.

Como os resultados não vinham, a empresa começou a tomar mais empréstimos para quitar os anteriores, até que, em 2021, começou a mostrar dificuldades em honrar compromissos de curto prazo.

Em razão da importância da Evergrande para o mercado imobiliário local e deste para a sustentação do crescimento econômico do país, surgiram rumores de que uma “bolha” estava prestes a estourar no setor, com potencial de gerar uma crise internacional equivalente à dos “títulos podres” do Lehman Brothers, em 2008, nos EUA.

Consequências para o Brasil

Como a China é o maior parceiro comercial do Brasil e o principal destino das nossas commodities, uma crise no país asiático poderia afetar setores exportadores, como o agronegócio, em especial aqueles com maior exposição ao mercado imobiliário chinês, como a mineração.

Além disso, os investidores estrangeiros poderiam se mostrar mais reticentes em investir no nosso país devido ao alto peso que a China tem em nossa balança comercial, temendo um contágio da crise na nossa economia. Isso poderia fazer com que até mesmo agentes do mercado nacional, como bancos e multinacionais, buscassem proteção, vendendo títulos e a moeda do Brasil.

Em consequência, poderíamos ver uma disparada do dólar e, com ela, um aumento mais acentuado da inflação, obrigando o Banco Central a subir juros e o governo a fazer um grande ajuste fiscal, o que poderia provocar uma grave recessão econômica no país.

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