Entenda como o kitsch se transformou de pejorativo a uma categoria estética respeitada
por Marlene Polito
Publicado em 01/04/2025, às 11h03
Por que amamos o que, teoricamente, deveríamos desprezar?
Do anão de jardim à estatueta de unicórnio com glitter, do altar barroco dourado às novelas mexicanas e boleros rasgados, há algo no exagero, na artificialidade e até no “mau gosto” que insiste em nos seduzir. O nome disso? Kitsch.
Quando o mau gosto virou categoria estética
A origem do termo kitsch remonta à Alemanha do século XIX, onde era usado para descrever obras de arte baratas e sentimentais, feitas para agradar facilmente o público. De início, era apenas um rótulo pejorativo, que opunha esse tipo de produção à "arte elevada", autêntica, refinada. No século XX, o debate se intensificou.
O crítico Clement Greenberg foi um dos primeiros a identificar o kitsch como um subproduto da cultura de massa: uma arte que, segundo ele, evitava o esforço intelectual em troca da gratificação imediata. Hermann Broch, por sua vez, via o kitsch como um consolo fácil, quase anestésico, para um mundo cada vez mais desencantado. Mas o tempo, sempre ele, gosta de dar meia-volta.
O retorno triunfal do exagero
Na segunda metade do século XX, com o advento do pós-modernismo, o kitsch passou por um inesperado processo de ressignificação. O que antes era considerado “feio” ou “cafona” ganhou nova roupagem e começou a ser revisitado como objeto digno de estudo, ironia e até veneração.
Balloon Dog (laranja), de Jeff Koons, em exibição na Christie’s. Imagem: Divulgação
Artistas como Jeff Koons, com suas esculturas monumentais de cachorros-balão em aço reluzente (Balloon Dog), assumiram sem pudor a estética kitsch. Em uma só peça, ele mistura a inocência infantil com o luxo metálico e espelhado de uma galeria milionária. Andy Warhol, ao elevar latas de sopa Campbell’s à condição de ícones artísticos, também contribuiu para borrar as fronteiras entre o vulgar e o sublime.
No design, o grupo Memphis, fundado em Milão nos anos 1980, fez história ao criar móveis que pareciam ter saído de um sonho infantil regado a sorvete de tutti-frutti: estantes tortas, cores berrantes, formas geométricas que desafiavam a lógica. A estante Carlton, por exemplo, virou símbolo de uma estética que grita — e não pede desculpas.
Estante Carleton, por Ettore Sottsass. Imagem: Divulgação
De repente, o kitsch deixou de ser apenas “mau gosto” e passou a ser estratégia estética. Uma provocação consciente.
Um pouco de ironia, um pouco de afeto
Umberto Eco, um dos maiores intelectuais do século XX, em Apocalípticos e integrados, nos ajudou a entender o kitsch como parte legítima da cultura de massa — algo que não deve ser descartado por puro esnobismo intelectual.
Afinal, o que move o kitsch, muitas vezes, é o afeto. Ele não busca o aplauso da crítica, mas o calor do reconhecimento. Um sentimentalismo escancarado que, para alguns, é piegas. Para outros, é humano demais para ser ignorado.
Na estética queer, no universo drag, nas festas populares, no carnaval: o kitsch se insinua como uma forma de resistência ao gosto institucionalizado. Ele é irreverente, colorido, exagerado — e justamente por isso tão poderoso.
O brega nosso de cada dia
Se o kitsch europeu tem seus bibelôs dourados e suas tapeçarias aveludadas, por aqui ele se manifesta com brilho e coração.
Pinguins de geladeira. Imagem: Divulgação
E como esquecer os pinguins da geladeira da vovó? As toalhinhas de crochê plastificadas? Os bibelôs de casal apaixonado, os quadros com cachoeira que acende, os porta-retratos com purpurina? Isso sem falar nas lojinhas de beira de estrada, com suas fontes iluminadas, cavalinhos que balançam a cabeça e cachorrinhos que acendem seus olhos a cada freada do carro.
São objetos que talvez não passem pelo crivo da crítica de arte, mas que passam — com louvor — pelo crivo do afeto. Ridículos? Talvez. Mas adorados, guardados, presentes de aniversário e troféus de conquista.
O kitsch, nesse sentido, é a prova de que o gosto, mesmo o “mau gosto”, é também uma forma de amor. Valoriza o artifício, o exagero e o que é “tão ruim que chega a ser bom”.
Porque o que é kitsch nunca é só kitsch
No fim das contas, talvez o kitsch nos comova porque ele fala diretamente ao coração — sem filtros, sem rodeios, sem medo do ridículo. Ele pode ser superficial, mas nem por isso vazio. Pode parecer ingênuo, mas às vezes esconde camadas de crítica e subversão. Ele nos confronta com o que tentamos esconder: nosso gosto pelo dramalhão, nossa nostalgia do que é simples, nossa sede por beleza fácil — ou por uma beleza que não pede licença para ser sentida.
A fronteira entre o sublime e o cafona é tênue. E deliciosa. Afinal, quem nunca se emocionou com algo que não ousaria colocar na estante?
Marlene Theodoro Polito é doutora em artes pela UNICAMP e mestre em Comunicação pela Cásper Líbero. Integra o corpo docente nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, Gestão Corporativa e Gestão de Comunicação e Marketing na ECA-USP. É autora das obras “A era do eu S.A.” (finalista do prêmio Jabuti) e “O enigma de Sofia”. [email protected]
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