Cultura

O caso Zambelli merece reflexões além das manchetes

Na semana passada, recebi em minha sala de aula o último Zambelli

Analisando o comportamento de Zambelli em um momento delicado e sua visão sobre a Justiça e a política brasileira - Imagem: Zeca Ribeiro/ Câmara dos Deputados
Analisando o comportamento de Zambelli em um momento delicado e sua visão sobre a Justiça e a política brasileira - Imagem: Zeca Ribeiro/ Câmara dos Deputados
Reinaldo Polito

por Reinaldo Polito

Publicado em 04/04/2025, às 13h42


Na semana passada, recebi em minha sala de aula o último Zambelli. Sim, além de Carla Zambelli, foram meus alunos todos da família: pai, mãe, marido, irmão e irmã. Faltava um: seu filho. A deputada só esperava que ele crescesse um pouco para se aperfeiçoar no uso do microfone. Ministro curso de oratória para essa família há 40 anos.

Ao me encaminhar o filho, a conversa desta vez não poderia ser outra: seu julgamento pelo STF. Fiquei impressionado ao ver que, mesmo atravessando um dos momentos mais delicados da sua vida, agravado por questões de saúde que a acompanham há anos, seu comportamento é de muita serenidade e confiança no futuro. Fala da situação com bastante naturalidade.

E ali, no pedido simples para que eu cuidasse do menino na aula, não estava a política famosa, polêmica, combativa, que vive no olho do furacão, mas a mulher sensível, a mãe amorosa, preocupada com o bem-estar e o futuro de quem tanto ama.

A justiça deve ser acatada, mas pode ser questionada

Trata-se de uma importante protagonista da recente história política brasileira. A Justiça deve ser respeitada. Suas decisões, cumpridas. Mas os episódios que a motivam, sobretudo aqueles de grande repercussão pública, podem, e devem, ser analisados por diferentes ângulos, inclusive para que a sociedade reflita sobre seus valores, seus critérios e suas possíveis incoerências.

Foi o que me levou, no ano passado, a escrever um artigo sobre Carla Zambelli. A abordagem foi quase familiar, sem qualquer viés ideológico, como já fiz com alunos políticos de todas as vertentes, do senador Eduardo Suplicy ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Como disse Terêncio: “Nada do que é humano me é estranho”.

Agora, com o julgamento de Carla Zambelli em curso no Supremo Tribunal Federal, volta à cena o episódio que a colocou no centro da polêmica: a imagem, reiteradamente repetida, de uma mulher armada, correndo atrás de um homem que a hostilizou na véspera do segundo turno das eleições de 2022.

Motivos a serem ponderados

Sem nos fixarmos apenas às imagens, que nem sempre interpretam as infindáveis facetas incrustadas no ato, e reiterando que toda decisão da justiça deve ser acatada, vale ponderar: seria possível avaliar aquela reação também como reflexo do medo, da disparidade física e da tensão política que dominava o país naquela ocasião? E mais: se, por hipótese, a personagem da cena fosse uma mulher ligada à militância progressista, a resposta social teria sido a mesma?

Nos Estados Unidos, um caso semelhante causou comoção e debate jurídico. Em 2012, Marissa Alexander, mulher negra, mãe e sem antecedentes criminais, foi condenada a vinte anos de prisão por ter disparado uma arma, sem atingir ninguém, para afastar o ex-marido agressor. Alegou legítima defesa.

Defesas e acusações seletivas

Mesmo assim, a condenação veio com peso. Só após pressão popular, apoio de movimentos feministas e defensores dos direitos civis, conseguiu apelar e obter liberdade. Na época, muitos argumentaram que, se Marissa fosse branca e de classe média, teria sido tratada com mais compreensão. São as idas e vindas da seletividade.

É curioso como a lente ideológica muitas vezes entra em cena para contaminar os fatos. Mulheres ligadas a movimentos progressistas, por exemplo, costumam contar com a pronta solidariedade de grupos organizados. Já as conservadoras geralmente não recebem o mesmo apoio.

O prisma de acordo com o viés ideológico

A cena de Carla Zambelli poderia ser interpretada, em outro contexto, como um ato de coragem, de coerência de princípios, de defesa. Bastou, entretanto, que a protagonista fosse ela, em um cenário político sensivelmente radicalizado, para que o julgamento público fosse severo, antes mesmo que a Justiça pudesse se pronunciar.

Chama atenção que, nos últimos tempos, algumas lideranças conservadoras têm sido reiteradamente afastadas da disputa eleitoral, como, por exemplo, o caso do ex-presidente Jair Bolsonaro, declarado inelegível mesmo liderando as pesquisas para a presidência em 2026.

Uma reflexão necessária deve se concentrar entre princípios e bandeiras

Esse contraste entre reconhecimento popular e condenação simbólica expõe algo mais profundo: a dificuldade de reconhecer méritos em quem pensa diferente. Há uma recusa, quase automática, em admitir que pessoas com visão política oposta possam ser competentes, bem-sucedidas ou até — por que não? — movidas por convicções sinceras.

Se for a favor da mulher, que seja sempre, ainda que ela pense diferente. Se for pela justiça, que seja imparcial, ainda que inconveniente.

Porque, no fim das contas, o que se espera de uma democracia madura é que o direito à defesa, à complexidade e à humanidade não esteja reservado apenas aos que pensam igual a nós. Sua base de sustentação está na diversidade de opiniões.